Dane-se o mandato, disse Eduardo Paes

Dane-se o mandato, disse Eduardo Paes

Eduardo Paes diz a seu aliado um “Dane-se seu mandato”, em mais um sinal de desrespeito ao Poder Legislativo e de um prefeito que se vê como o monarca ilustrado da Guanabara.

Paes resolveu protagonizar um espetáculo tragicômico digno de García Márquez — só que sem literatura e com muito suor de praia.

No último dia 16 de maio, Paes encenou uma reunião no Teatro Ipanema com os barraqueiros da orla carioca — aquele tipo de encontro em que o prefeito acha que está dando uma aula magna de civilidade, mas acaba parecendo mais um coronel de terno.

O tema? Um decreto novo, com regras mais rígidas para quem trabalha nas areias do Rio. Ali, ao lado do fiel escudeiro vereador Flávio Valle, Paes tentou empurrar a medida goela abaixo.

Mas eis que o povo — esse inconveniente elemento da democracia — resolveu se manifestar. No auge do nervosismo, lançou a frase que há de ecoar até a eleição:

“Prefiro perder a eleição do que ter uma cidade esculhambada.” Só faltou dizer: “desde que eu decida o que é ou não esculhambado.” Porque, convenhamos, o que para ele é ordem, para os outros costuma ser abuso. Logo após, a gritaria na imprensa foi tamanha que nem a retórica arrogante do prefeito deu conta.

Se você pensa que parou aí, prepare-se: mais um ato da ópera-bufa veio com a divulgação de um vídeo da fatídica reunião. Nele, Paes se vira para Valle e diz, com a elegância de um elefante em loja de cristais: “Dane-se, com todo respeito, o seu mandato, Flávio.”

Eis aí o prefeito, em sua plenitude, resumido em uma frase. Um homem que acredita piamente que o poder Executivo é também Legislativo, Judiciário, cartorial e, se deixar, até síndico do condomínio alheio.

Ora bolas, até onde me consta — e consta também na Constituição — há algo chamado separação dos Poderes. Há também uma coisa chamada respeito ao voto popular.

Mas isso tudo parece balela para um prefeito que se vê como o monarca ilustrado da Guanabara. Paes age como se a cidade fosse um brinquedo seu e os vereadores, bonequinhos que ele pode mover ao bel-prazer.

Flávio Valle, que achou que poderia ser o puxa-saco mais esperto da corte, acabou provando do próprio veneno: foi humilhado diante do povo e ridicularizado pelos colegas.

No fundo, o que estamos vendo é a falência de uma forma de fazer política baseada no personalismo, na arrogância e no improviso. Paes reina — mas reina sobre um castelo de areia. E a maré está subindo.

 

 

 

Por: Quintino Gomes Freire – Diário do Rio

Imagem gerada por Inteligência Artificial

 

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